Por lapso, passou-me despercebido um artigo escrito por Nuno Cintra Torres para o Diário Económico do dia 5 de Setembro. No entanto, ainda há tempo de recuperá-lo e publicá-lo aqui no blogue. Optei por colocar o texto na íntegra, pois resume de forma clara alguns pontos importantes da TDT em Portugal.
“TDT: o verdadeiro objectivo”
Nuno Cintra Torres
“A digitalização da TV resulta na utilização mais eficiente do espectro radioeléctrico. Abre a possibilidade aos governos de licenciarem novos serviços e fileiras de receitas do Estado.
Mais espectro promove inovação, negócios e, eventualmente, maior concorrência. Outros benefícios são idênticos aos do cabo: mais canais de TV (mas menos que outros meios) e melhor qualidade de imagem e som. As frequências são agregadas em multiplexers e depois desagregadas pela set-top box digital ou televisor equipado com STB, que o consumidor tem de adquirir.No Multiplexer A (concurso Anacom) haverá reserva de capacidade para a RTP1, RTP2, Açores, Madeira, SIC, TVI. A capacidade que sobrar dá para mais canais livres, mas a forma de utilização é para consulta pública. Serão os canais existentes em alta definição (HD) ou novos canais e novos operadores? Os Multiplexers B a F (concurso governo) são para pay TV. Os muxes B e C são nacionais e os muxes D, E, F são de âmbito parcial, com resguardo de 80Km até à fronteira. Parte da população ficará privada desses canais.
Os concursos estão articulados. Permite-se que um operador faça a gestão de todos os muxes. É o modelo adoptado em 2000 pela Suécia que agora vai ser abandonado, com a concorrência de nova plataforma TDT.
Estima-se que o mercado potencial da TDT por subscrição são lares que actualmente não querem ou não podem pagar subscrição. De facto, o mercado potencial é todo o mercado, mas, por precaução, exige-se apenas a cobertura de 76% da população nos muxes B a F, contra 99% no mux A.
É favorecido o bundling das ofertas e dos licenciados free-pay, porque, segundo a Anacom, a fragmentação dos canais de acesso livre não permitiria criar valor atraente para o utilizador e assegurar a sustentabilidade, a digitalização e o switch off. Este pressuposto não é corroborado pela experiência.
Não há restrições para concorrer ao Mux A. Nos Muxes B a F os direitos não podem ser atribuídos a entidade que detenha no mercado de TV por subscrição uma quota de mercado igual ou superior a 50%.
O universo oficial são os alojamentos apurados em censo pelo INE (5,520,000), pelo que nenhum dos actuais operadores poderá ser excluído. A TV Cabo tem uma quota de 27% dos alojamentos (1,495,000 subscritores, Anacom).
O licenciado terá de proceder à rápida massificação com STBs ou televisores digitais. Irá enfrentar a má qualidade de muitas antenas tipo grelhador e cabos que terão de ser renovados.
A maioria dos condomínios não irá reinstalar as antenas. Ainda há dias mais uma cidade se quis ver livre delas (Álcacer do Sal). O melhor mercado potencial já está ocupado, pelo que se questiona o esforço de cobertura requerido.
Itália e Alemanha não exigem a cobertura TDT das zonas mais cabladas. Nos EUA, os consumidores que resistem ao digital podem atrasar o calendário. O regulador (FCC) pediu aos operadores de cabo para ajudarem a universalizar a TV digital — o objectivo estratégico nacional.”