A introdução da TDT

O Jornal de Notícias publicou hoje uma reportagem sobre a introdução da TDT em Portugal, onde fui uma das fontes. A peça pode ser acessada aqui.

Aproveito para esclarecer que quando digo que ao “governo que caberá agir como maestro nesse jogo de forças, sem ter que seguir uma determinação pré-estabelecida, mas com a possibilidade de alterar as regras do jogo“, refiro-me à nova Lei da Televisão, que não regulamentou a TDT. A informação consta no artigo “Os bastidores da TV digital”, que apresentei no SOPCOM.

Leia abaixo a entrevista completa que concedi ao JN, onde há informações complementares ao material que foi publicado:

1º Definição de televisão digital. 

A televisão digital é um sistema de difusão televisiva que transmite sinais constituídos por bits, ou seja, é uma televisão que tem a mesma linguagem dos computadores. Devido a essa característica, os sinais da TV digital são transmitidos de forma comprimida, ao contrário da TV analógica, cuja transmissão é feita por sinais eléctricos. Por isso, para assistirmos os canais digitais, há a necessidade de haver descodificadores. Uma outra característica possibilitada pela compressão dos sinais da TV digital é que numa mesma frequência hoje ocupada pela TV analógica podemos ter mais canais, já que os sinais digitalizados ocupam menos espaço no espectro de frequências do que os sinais eléctricos analógicos. Portanto, tecnicamente, a TV digital abre a possibilidade de termos mais canais. Há quatro padrões de televisão digital no mundo: o padrão norte-americano (ATSC), o padrão japonês (ISDB), o padrão chinês (ADTB) e o padrão europeu (DVB). O DVB – Digital Video Broadcasting subdivide-se em várias plataformas que permitem, respectivamente, a televisão digital terrestre, por cabo, via satélite e por Internet protocol (IPTV), que é transmitida pelos cabos de cobre da rede telefónica. O processo de consulta pública que terminou na segunda-feira refere-se à televisão digital terrestre.

É por meio terrestre que temos hoje os sinais abertos da TV analógica, os canais TVI, SIC, RTP, 2:, RTP Madeira e RTP Açores. O Governo já definiu que fará dois concursos públicos, um para a TV digital terrestre com canais livres e outro para a TDT paga. Os canais serão transmitidos em seis multiplexes, que foram denominados por letras, de A a F. Um multiplex é o que possibilita que numa mesma faixa do espectro sejam transmitidos diversos canais. O multiplex A será destinado à TV livre. Os multiplexes B e C serão dedicados à transmissão de canais nacionais por subscrição. Já os multiplexes D,E e F serão para a transmissão de canais regionais. 

Já é certo que os actuais operadores terão automaticamente espaço na TDT, mas a grande questão que será definida com os resultados da consulta pública é se entrarão novos operadores na TV aberta. Os actuais operadores dizem que não há mercado no país para mais canais. Já as empresas que pretendem  entrar na área da TV aberta dizem que é preciso haver mais concorrência.  Portanto, nas próximas semanas vamos saber se teremos outros operadores televisivos em Portugal. Há também a possibilidade das actuais emissoras ganharem novos canais e ainda é possível que seja definida a transmissão em TV de alta definição (HDTV). Outra questão que se coloca é a entrada da TV móvel, uma tecnologia de TV digital terrestre ou por satélite para dispositivos portáteis, como telemóveis. 

2º O que se pode esperar da TDT em Portugal? E que desafios se colocam no futuro? 

Portugal chegou a lançar um concurso público para a TDT, em 2001. Na época, o vencedor foi o consórcio PTDP – Plataforma de Televisão Digital Portuguesa, formado pelo Grupo Pereira Coutinho, RTP e SIC. No entanto, o concurso foi cancelado em 2003 por dificuldades tecnológicas e comerciais para a implementação da TDT.           

O projecto foi deixado de lado e só arranca agora, o que coloca Portugal como um dos países mais atrasados da União Europeia na implementação da TDT. Neste momento é preciso correr contra o tempo, pois a Comissão Europeia prevê para 2012 o fim das transmissões analógicas, o que configura um desafio grande. Outro desafio que se coloca é cumprir a determinação do Governo, que vai exigir aos vencedores do concurso público que consigam cobrir com o sinal digital 99% da população na TV aberta ao final de três anos. No caso da TDT paga a exigência é de 76% de cobertura.            

Acredito que podemos esperar que a TDT em Portugal provoque mudanças de comportamento do mercado da TV aberta, que poderá resultar em fusões ou parcerias, com o objectivo de garantir as audiências, principalmente se entrarem novos operadores. Nesse sentido, o empresário Francisco Pinto Balsemão já tem mantido contactos com a TVI e poderão surgir novidades. Os possíveis novos operadores que querem obter canais também se articulam e já prevêem parcerias.           

No caso da TDT paga, o mercado vê essa possibilidade com reservas, pois ela não obteve o sucesso esperado noutros países, como no Reino Unido e Espanha. Seria preciso encontrar um modelo de negócios rentável, que ainda não está claro. 

3º Quando se pensa em TDT o que é preciso ter em conta?                       

É preciso ter em conta que as transmissões digitais são uma evolução, uma nova fase da televisão, que vem na onda da sociedade em rede, onde as pessoas têm mais direito de opinar, de interceder e onde os grandes media perdem parte do poder de mediação da sociedade que tinham no século passado. As grandes empresas de comunicação precisam adaptar-se a esta era e permitir aos seus clientes terem o direito de escolher que tipo de informação querem ter, na hora que querem e na plataforma que escolherem.                   

Também temos que perceber que a TDT chega tarde em Portugal, onde outros tipos de emissão televisiva digital já são possíveis, como a TV por cabo, a TV por satélite e a IPTV, que possibilitam um grau de interactividade maior, sobretudo a IPTV que, por ser transmitida pela rede de telefonia fixa, permite um canal de ligação directo entre o telespectador e a emissora, o que favorece a possibilidade de haver serviços interactivos e a oferta de serviços agregados, como o de telefone e Internet. As empresas do sector sabem que no futuro terão que oferecer aos seus clientes algo além da televisão e que se não investirem nisso estarão fadadas ao fracasso. 

4º Irá a TDT revolucionar a televisão em Portugal? Haverá mais interactividade entre quem produz e quem assiste? E em termos de ensino de jornalismo, poderá haver uma mudança de paradigma?            

Não acredito que a TDT, de forma isolada, revolucione a televisão. Ela faz parte de uma revolução muito maior que é a revolução digital. Em termos de Interactividade, a TDT tem condições de oferecer alguns serviços, mas enfrenta uma forte concorrência de outras plataformas televisivas que podem oferecer muito mais. Penso que a TDT não trará grandes novidades nesse sentido, em relação ao que temos hoje. Obviamente que virão algumas inovações, mas prever grandes mudanças na TV terrestre seria arriscado. De qualquer forma isso é uma incógnita cuja resposta depende de alguns factores como o comportamento do telespectador perante novos serviços que podem vir a ser oferecidos.           

No caso do ensino do jornalismo, as mudanças de paradigmas já vêm ocorrendo desde o surgimento do jornalismo online, no final da década de 1990. O aparecimento da TV digital é apenas mais um detalhe. A cada dia surgem novas formas de se divulgar notícias e isso já tem provocado mudanças nas redacções tradicionais. A imprensa mudou, a rádio mudou e a televisão também tem mudado. Tudo isso acontece porque quem mudou primeiro foi o consumidor de notícias que, com a Internet, passou a ter a possibilidade de ser também um produtor de informação, um ser que antes era um consumidor passivo e que agora tem voz. As Universidades têm acompanhado essas inovações e é preciso destacar que em Portugal o ensino superior está muito atento  e oferece cursos de jornalismo de alta qualidade. 

5º Em que ponto está o processo? O que se segue à consulta pública? Para quando as primeiras emissões?            

Com o fim da consulta pública, o próximo passo a ser dado é a divulgação das respostas à essa consulta. Depois a ANACOM vai preparar o documento final que trará as directrizes para a realização dos concursos, que podem ser realizados ainda este ano ou no início de 2008. A proposta de Orçamento de Estado, apresentada na última sexta-feira já indica o desenvolvimento da oferta de televisão digital terrestre e de televisão móvel. Portanto tudo indica que em 2008 teremos as primeiras emissões da televisão digital terrestre portuguesa.                   

One response to “A introdução da TDT

  1. Boa Noite, primeiro gostaria de felecitar por esta noticia. ajudou a esclarecer algumas duvidas que tinha.

    Só tenho mais uma dúvida.

    Gostaria de saber o que acontece as Tv’s com sinal analógico, se existe algum aparelho que se possa adaptar para modificar ou acopular o sinal digital, ou se existe medidas PENSADAS pelo SR. Governo em relação ao preço por aquisição de uma nova Tv?.

    Obrigado

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