Campanha da TDT: a opinião de Eduardo Cintra Torres.

Republico aqui a opinião do jornalista Eduardo Cintra Torres, sobre a campanha publicitária da TV digital terrestre portuguesa.

Cintra Torres foi uma das primeiras pessoas que tive a oportunidade de entrevistar, assim que comecei a dar os primeiros passos na investigação que levaria ao doutoramento que mantenho em curso, onde analiso a implementação da TDT em Portugal.

É uma personalidade da comunicação portuguesa que conhece profundamente os processos de decisão política inerentes aos media do país, além de ser um investigador com produções de altíssima qualidade.

A opinião de Cintra Torres foi publicada no Jornal de Negócios. Leia a seguir:

“A mensagem da campanha da Televisão Digital Terrestre (TDT) para os mais pobres e desligados das inovações técnicas é tão pouco assertiva que parece difícil passar e chegar aos públicos-alvo.

O anúncio televisivo mostra sucessivamente Sónia Araújo, Leonor Poeira, Nuno Graciano e Paulo Bento junto de cidadãos comuns, nas casas destes ou, no caso do seleccionador nacional de futebol, num bar.

A apresentadora das manhãs da RTP1 toma o pequeno-almoço com uma família; Leonor Poeira, apresentadora nas tardes da TVI, lancha com uma idosa; Nuno Graciano, da SIC, janta com outra família; e Bento joga às cartas com um grupo de rapazes. Deste modo, o anúncio começa pela alegoria em que a televisão surge transformada em “pessoas conhecidas” da televisão, para depois fazer da hipérbole da importância da televisão na vida das pessoas uma metáfora visual: se os “conhecidos” fazem tão intensamente parte da vida das pessoas, é como se estivessem em casa delas; nestes quatro casos, eles aparecem mesmo onde as pessoas comuns vêem TV. O texto vai explicando que para continuar a estar com eles o espectador necessita de mudar para a TDT, terminando com duas frases inscritas em dois televisores antiquados.

A escolha dos “conhecidos” pretende apelar para um público habituado à “companhia” da TV generalista: os três primeiros são apresentadores de programas de conversa e entretenimento e Paulo Bento é “companhia” antes, durante e depois dos jogos e nos noticiários e programas desportivos. A ausência de referência directa ou indirecta à RTP2 é igualmente significativa, pois assume-se que os espectadores pouco ligam a este canal, embora eles o vejam mais do que os espectadores com acesso ao cabo e satélite. Como o anúncio se destina a pobres e pessoas menos instruídas, retirou-se qualquer referência ao segundo canal do Estado, como se ele não contasse para alguma audiência e como se estivesse a coberto do apagão digital.

Esta campanha ICP-Anacom não faz qualquer referência aos quatro canais nacionais, o que é errado, pois a mensagem ficou dúbia. Embora adendada uma segunda campanha, esta deveria ser muito mais directa, forte, definitiva quanto à perda do acesso aos quatro canais nacionais. Nos mupis, a leitura da mensagem de, por exemplo, Bento à mesa com dois rapazes é difícil: “para continuar a vê-lo tem de mudar para a televisão digital terrestre”. A vê-lo, quem? Bento? Como, sentado no café? Ou a ver algum canal? E mudar o quê? A identificação “conhecido”-televisão é demasiado frouxa. O texto dos anúncios fala em mudança, mas não se vê mudança nenhuma nas imagens.

A presença dos amáveis apresentadores e seleccionador junto de cidadãos comuns é enganadora, pois mostra precisamente o contrário do que a mensagem verbal refere. Já se cada um dos “conhecidos” desaparecesse como magia do convívio com os anónimos, a ideia da companhia e da necessidade de mudar para a TDT faria sentido. Se um espectador adora ver a Praça da Alegria, por exemplo, ficaria assustado se Sónia Araújo desaparecesse da mesa do pequeno-almoço familiar.

O que o anúncio mostra é precisamente o contrário da mudança: a presença amiga nas casas ou na mesa do café é pacífica, sem sinal de que algo se vai alterar. Se os espectadores menos atentos não ouvirem ou não entenderem o texto, lido por uma voz “off” em tom doce, provavelmente pouco ligarão ao anúncio. E esse pode bem ser o caso de muitos idosos e iletrados para quem TDT ou mesmo “Televisão Digital Terrestre” são uma sigla e um número que não querem dizer nada. Provavelmente não sabem o que é “digital”, e provavelmente faz-lhes confusão falar-se em televisão “terrestre”. O anúncio foi dirigido aos mais pobres, despossuídos e iletrados, mas com uma mensagem fofinha, demasiado ficcionada, incompleta na encenação e uma linguagem verbal muito desadequada, é bem possível que não atinja os objectivos.”

A publicação original pode ser lida aqui.

2 responses to “Campanha da TDT: a opinião de Eduardo Cintra Torres.

  1. Esta notícia do Público é exemplificativa dos verdadeiros motivos da introdução da TDT em Portugal. Repare-se nas receitas previstas para o leilão das faixas de frequências, sendo a mais valiosa aquela que será subtraída à Televisão Analógica. Com receitas desta ordem, não era da mais elementar justiça oferecer mais canais livres (por conta da compra de um aparelho novo) em troca desta autêntica benesse para o Estado?

    “A Anacom, o regulador das telecomunicações, anunciou hoje que o leilão das frequências da quarta geração móvel vai avançar em Junho, depois de terminada a consulta pública e aprovado o seu regulamento.

    “Temos condições para lançar o leilão em Junho”, avançou hoje o administrador da Anacom, Ferrari Careto, num encontro com jornalistas, garantindo que o processo de atribuição das frequências e das obrigações de cobertura dos operadores estará concluído no mesmo mês.

    O projecto regulamento do leilão da quarta geração móvel, também designada por LTE (Long Term Evolution, que permite aceder à banda larga móvel em alta velocidade ), que já estava previsto até ao final do primeiro semestre de 2011, está agora em consulta pública. Fase que terminará a 2 de Maio.

    Haverá, posteriormente, uma incorporação de recomendações e a aprovação final do regulamento. E, finalmente, o leilão, que, avançando em Junho, acontecerá imediatamente antes de a actual administração (liderara por José amado da Silva) da Anacom cessar o mandato de cinco anos, não renovável.

    No encontro de hoje, Ferrari Careto preferiu não se comprometer com expectativas de receitas com a atribuição de frequências. “Não se deve pensar em receitas garantidas”, disse, explicando que a maior procura recairá sobre a faixa de 800 mega hertz.

    No entanto, tendo em conta o valor mínimo definido para cada um dos lotes e não considerando a eventual subida destes montantes, no momento da licitação, o encaixe será de, pelo menos, 462 milhões de euros.

    Os operadores interessados vão ser obrigados a depositar uma caução, que varia entre um e 20 milhões de euros, para participarem no leilão, e que será depois devolvida. E as licitações terão de corresponder a cinco ou dez por cento do valor anterior, dependendo da frequência, chegando a 15 e 30 por cento, à décima ronda.”

    http://economia.publico.pt/Noticia/leilao-para-quarta-geracao-movel-avanca-em-junho_1486217

  2. realmente o que o anuncio mostra é o contrário da mudança.😦

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