Célia Quico: “TDT em Portugal – oportunidade perdida?”

A professora da Universidade Lusófona e coordenadora geral do projeto Adopt-DTV, Célia Quico, publicou na edição do jornal Sol desta semana, um importante artigo que demonstra alguns erros estratégicos na implementação da TDT portuguesa.

Transcrevo o artigo:

“TDT em Portugal – oportunidade perdida?

«Mas eu vou ficar mesmo sem televisão? Oh meu Deus… Isto é a minha companhia!» (Catarina, 73 anos); «A minha mãe já tem 78 anos, recebe uma reforma de cento e tal euros. Como é que ela pode?» (Manuel, 48 anos); «Tem que ser! Ficar sem televisão não vamos ficar» (Sara, 46 anos ) – estas são algumas das respostas dadas pelos participantes no estudo etnográfico realizado no âmbito do projecto de investigação ADOPT-DTV da Universidade Lusófona, quando questionados sobre o desligamento do sinal de TV analógico terrestre e informados sobre a obrigatoriedade de adquirir equipamentos ou serviços para poder continuar a receber TV em casa. Estas citações servem para recordar que o grande desafio neste processo de migração não é a tecnologia, mas antes o seu impacto social.

O principal objectivo do projecto ADOPT-DTV foi o de compreender quais são os principais factores para a adopção e rejeição da TV digital por parte da população Portuguesa no contexto da migração para a televisão digital terrestre (TDT), tendo decorrido de Abril de 2010 a Outubro de 2011.

Para além do estudo etnográfico acima referido, a equipa de investigação entrevistou as principais partes interessadas no processo de transição da televisão analógica terrestre para a TDT, tais como representantes da RTP, Impresa, MediaCapital, PT, ZON, Sonae.com, Anacom, Deco, entre outros.

Ainda este projecto integrou um estudo de usabilidade para teste de algumas das caixas descodificadoras no mercado português, bem como um inquérito quantitativo a uma amostra representativa da população portuguesa. O relatório final e os relatórios parciais deste projecto estão disponíveis na integra no web site: http://adoptdtv.ulusofona.pt/

Em Portugal, o processo de migração da TV analógica terrestre para a TDT tem algumas particularidades que o distinguem dos restantes países europeus. A TDT deveria trazer diversos benefícios tangíveis para os espectadores, como o aumento de canais TV gratuitos, canais em alta definição, melhoria da qualidade de imagem e som, serviços interactivos e aumento da taxa de cobertura da rede de TV em sinal aberto.

Porém, no caso de Portugal não se verificou o esperado aumento de canais de TV, o canal de HD que estava previsto ainda não arrancou, a melhoria da qualidade do sinal é discutível e o único serviço interactivo disponível é o guia de programação. Ainda, há a agravante da cobertura da rede de TDT não ser verdadeiramente universal: cerca de 13% dos portugueses não recebem TDT, tendo que adquirir um equipamento satélite, mais caro do que as caixas básicas de TDT e ao qual acresce os custos de contratação de um técnico para instalação da respectiva parabólica.

De notar que na vizinha Espanha, a taxa de cobertura da rede de TDT fixou-se nos 98.5% e que os espectadores passaram a receber 20 canais nacionais gratuitos com a TDT ainda antes do desligamento, quando antes tinham 4 canais nacionais em sinal aberto através do sistema de TV analógico terrestre.

Vale a pena também notar que em Espanha, a população começou a ser alvo de campanhas de informação 4 anos antes da conclusão da migração, enquanto que em Portugal a primeira campanha de informação foi lançada em Março de 2011 – a 10 meses da data da primeira fase de desligamento.

Assim, já que os espectadores Portugueses praticamente não encontram benefícios perceptíveis à migração voluntária da TV analógica terrestre para a TDT e ainda têm que suportar a maior parte dos custos e do esforço para tal (a subsidiação é muito limitada e complexa, para dizer o mínimo), talvez não sejam de espantar os resultados obtidos no inquérito que a Lusófona realizou em Setembro de 2011, junto de uma amostra representativa da população constituída por 1.207 indivíduos:

  • Estimou-se que a percentagem da população de Portugal Continental que recebe exclusivamente televisão em sinal aberto estivesse próxima de 38%;
  • Verificou-se que a recepção de TV analógica terrestre se mantinha como largamente dominante junto dos Portugueses sem TV paga, tendo 92.4% destes inquiridos afirmado receber TV analógica através da antena tradicional e apenas 3% indicaram ter TDT; 
  • Estimou-se que a maioria da população desconhecia qual a data prevista do desligamento do sinal de TV analógica terrestre, tendo 59% de todos os inquiridos revelado não saber qual o ano do “apagão”; 
  • Verificou-se um baixo nível de conhecimento sobre as questões práticas relacionadas com a recepção de TDT, sobretudo no caso dos inquiridos sem TV paga em casa, dos quais 43.9% afirmaram que o seu televisor não era compatível com a TDT e 41.5% responderam não saber, enquanto que 14.6% indicaram que era compatível.

Naturalmente, estes e outros indicadores devem ter evoluído de modo positivo desde Setembro, com o aproximar das datas do desligamento. Porém, resta saber até que ponto – e a que preço para os Portugueses.

Seja como for, até ao momento o processo de migração para a TDT tem sido uma oportunidade perdida para melhorar a quantidade e a qualidade da oferta televisiva em sinal aberto.

Alguém deve estar a ganhar algo com a TDT em Portugal, mas até agora quem está a perder são os espectadores, em particular os que não são subscritores de TV paga – o mesmo é dizer, sobretudo os mais idosos, os mais carenciados, com menores habilitações académicas e com necessidades especiais. Ainda há volta a dar a esta situação?”

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