Switch-off analógico: o erro nas zonas piloto em Portugal

O texto abaixo foi escrito pelo Engenheiro de Telecomunicações Eliseu Macedo, que faz um alerta a respeito do switch-off analógico nas áreas escolhidas em Portugal como zonas piloto. Leia a seguir:

“Quando a Anacom, por deliberação de 24 de Junho de 2010, aprovou a decisão final sobre o plano detalhado de cessação das emissões analógicas terrestres (plano para o switch-off) ficámos a saber os critérios para a escolha das zonas piloto do desligamento analógico. Na deliberação podemos ler:

‘Assim, são potencialmente elegíveis para esta fase piloto retransmissores que se encontrem nas seguintes condições: (i) que seja fácil em termos operacionais proceder à cessação das emissões analógicas; (ii) que a cessação das emissões analógicas se processe em zonas bem delimitadas cuja orografia dificulte de forma significativa, após o desligamento do retransmissor em causa, a recepção das emissões de TV por estações analógicas alternativas ainda em funcionamento.’

Ou seja, é uma condição fundamental para a realização do teste que na zona a desligar não cheguem sinais provenientes de outros emissores ou retransmissores que não sejam desligados na mesma data, como faz todo o sentido. É por isso que noutros países, como em Espanha e França por exemplo, os desligamentos analógicos foram sendo executados em áreas geograficamente mais amplas, abrangendo vários emissores e retransmissores de uma só vez.

Estranhamente, em 22 de Dezembro de 2010 a Anacom aprovou a decisão final que designa os retransmissores de Alenquer, Cacém e Nazaré para a realização da fase piloto de cessação das emissões analógicas terrestres, bem como as respectivas datas de encerramento. Tratam-se de localidades com reduzida área e onde se recebem emissões de vários emissores e retransmissores! Como espera então a Anacom testar o sucesso da migração para a TDT se nessas localidades as pessoas puderem continuar a seguir as emissões em TV por sinal analógico, mesmo que com sinal algo deficiente?

Vejamos o caso de Alenquer:

O retransmissor de Alenquer é retransmissor de muito baixa potência (ref: http://www.anacom.pt/render.jsp?categoryId=42733) o que indicia ter uma cobertura bastante reduzida. Na figura anterior podemos também observar que está bastante próximo de outras fontes de sinal analógico, sendo a mais importante de todas o emissor de Montejunto.

O emissor de Montejunto é um ponto estratégico da rede nacional de emissores, com uma área de influência bastante grande. A potência deste emissor é cerca de 200 kW P.A.R, a uma cota de cerca de 650 metros.

A figura anterior mostra o perfil de elevação da linha de vista entre Alenquer e Montejunto. Do lado esquerdo fica a localização do emissor em Montejunto e do lado direito a localidade de Alenquer. Podemos constatar que não existe uma obstrução significativa de linha de vista, pelo que os sinais do potente emissor de Montejunto, apenas a 15 km de distância, poderão certamente ser recebidos em muitos locais de Alenquer, mesmo depois do desligamento do retransmissor local. Haverá situações em que essa recepção será mais difícil, pois ainda assim existem pequenas elevações de terreno (e por isso existe o retransmissor de Alenquer), mas é muito provável que o sinal de Montejunto, pela intensidade de campo que previsivelmente terá naquela zona (devido à potência e proximidade daquele emissor), possa ser recebido quer por via directa, quer mesmo por reflexão. Não é fora do comum orientar-se antenas para direcções diferentes da origem geográfica do sinal e obter-se mesmo assim um bom sinal de TV por reflexão quando a via directa estiver obstruída.

Um forte indicador desta probabilidade é o facto da TVI nem sequer estar activa no retransmissor de Alenquer, o que indica que será possíve receber a TVI a partir de outro emissor ou retransmissor!

Nestas condições, é muito possível que o apagão piloto em Alenquer venha a ser considerado “um grande sucesso”. No entanto o que é previsível que venha a acontecer é que muitos espectadores fiquem convencidos que, após uma re-sintonia da sua TV, estão aptos a receber a TDT, quando na realidade estão ainda  a visualizar os programas em modo analógico provenientes de um outro posto emissor. Outros espectadores, mesmo plenamente conscientes que ainda estão a receber em analógico, preferirão mesmo assim adiar a compra de receptores TDT até ao verdadeiro apagão previsto para 2012. Tal é compreensível, devido à paupérrima oferta televisiva da TDT portuguesa (a mais pobre do planeta) e ao preço dos aparelhos, aliados à enorme crise enconómica que vivemos.

Iremos assistir a um apagão analógico com uma boa luz de emergência acesa?”

12 responses to “Switch-off analógico: o erro nas zonas piloto em Portugal

  1. Concordo plenamente. A demonstração tecnica é mais do que evidente e não se aplica apenas a Alenquer.

    No caso do Cacém a orientação tradicional para a recepção analógica é Monsanto. Em alternativa, existem os retransmissores de Barcarena e Odivelas que cobrem parte da área. Tirando o centro do Cacém, a grande maioria NÃO recebe as emissões por via do retransmissor local, até porque a localização deste é francamente má. Nestas condições o switch-off não terá qualquer impacto.

    Mais, nesse mesmo local o sinal de TDT também pode ser recebido por via de outros emissores digitais que não o do Cacém (na localização em que se encontra também não consegue cobrir toda a área). Tal como em analógico, Barcarena cobre bastante bem parte da cidade, por exemplo.

    Com a prevista mudança de frequência apenas do emissor do Cacém(idem para os restantes locais piloto), até a TDT deverá continuar a ser recebida no canal 67 como ate´aqui, por via dos emissores vizinhos, mas provavelmente em piores condições (a rede SFN ficará desarticulada).

    Não será só em Alenquer que teremos um caso de sucesso antecipado, no Cacém também assim será…

  2. José Ilídio MORAIS

    Boas,
    já aquando do anúncio das zonas piloto, alertei para a ANACOM, que não me parecia ser escolha pertinente, pelo facto de serem zonas servidas por vários emissores analógicos e mesmo pelos emissores digitais e que esta faze piloto não ía demonstrar nada da realidade.
    os problémas vão aparecer quando começar o desligamento dos emissores da zona litoral.

  3. Parece-me que realmente o objectivo da PT é que haja um caos quando ocorrer o switch-off total em 2012, de forma que parte da população fique sem poder assistir TV e recorra aos serviços pagos do MEO.
    Até agora todos os indicativos apontam para isso.
    O que me preocupa é que a Anacom aceite esse tipo de estratégia que atenta contra a população portuguesa.
    O caso das zonas piloto é vergonhoso. São áreas que não vão sofrer as consequências que a zona litorânea, por exemplo, irá sofrer quando o sinal analógico for desligado.
    Afinal, querem enganar as pessoas e estão a conseguir. É a única explicação para a sucessão de equívocos na implementação da TDT em Portugal.

  4. Claro que estes desligamentos não serão um verdadeiro teste. A TDT em Portugal, no essêncial, continua a ser uma farsa. Tomo a liberdade de reproduzir parte de um post publicado em 6/08/2010:
    «Recordo que um dos requisitos para a escolha dos retransmissores era a ausência de emissor ou retransmissor analógico alternativo de forma a evitar que os telespectadores continuassem a receber o sinal analógico. Parece-me que este requisito não foi observado, pois muitos dos telespectadores abrangidos por estes retransmissores poderão continuar a receber o sinal analógico a partir de outros emissores/retransmissores vizinhos. Enfim, os “afectados” dirão se assim é ou não. Creio pois que o desligamento nestes locais não vai permitir um verdadeiro teste ou ensaio para os desligamentos de 2012. Mais parece que a verdadeira intenção desta escolha foi causar o menor impacto possível junto da população e, mais uma vez, não encarar de frente os problemas que a TDT portuguesa enfrenta: preço dos adaptadores e oferta de canais. Assím, espera-se que estes “pilotos” sejam mais um “sucesso” para os responsáveis políticos.» in blogue TDT em Portugal
    link para o post em questão

  5. aqui na zona de Mata de Palhacana quase não chega nada quando chega é um vai vem. Quando vier o apagão muita gente não volta a ver nada. Podiam por um retansmissor no Sobral M.Agraço talvez safasse a onça, mas é uma vergonha emissores com tão baixa capacidade nem nos palopes.

    • Eu também sou da zona de Sobral de Monte Agraço (Dois Portos) e não apanho nada com a minha antena “rabo de bacalhau”. Será que com uma antena direccional UHF fico com o problema resolvido?
      A potência dos emissores do sinal digital é uma anedota quando comparada com a dos emissores de sinal analógico.

  6. Pingback: Alenquer: começa o apagão analógico em Portugal | TV DIGITAL EM PORTUGAL

  7. Pingback: Observações sobre a TDT em Alenquer | TV DIGITAL EM PORTUGAL

  8. nem alenquer, nem montejunto nem o raio que os parta a essa cambada de aldrabões ainda ligam para casa das pessoas a quase obrigarem a merter por satélite como já me acanteceu.

  9. Amigos falando de TDT os emissores de Agueda foram colocados em sitios muito baixos o que e que não serve a região a 5 K em linha recta devia-se captar com muito boa qualidade o que não acontece e há noite esta sempre a frizar mas ninguem que saber isto esta muito mau por esta zona um abraço a todos

  10. Moro numa aldeia nas proximidades de Torres Vedras (Cadoiço, Ventosa).
    Por azar a minha aldeia está num vale a poente da Ventosa que fica relativaemnte alta. Já instalei nova antena e sintonizador digital. O sinal que chega é instável e fraco, no máximo a 60%, a imagem liquefaz-se com ffacilidade. Tenho orientada a Montejunto que por acaso fica sensivelmente na orientação de Torres de Vedras, onde algumas inteligencias decidiram colocar o emissor – Torres Vedras fica num vale, a nascente 3 km, fica uma serra (Serra da Vila ou Varatojo, local onde o poderiam ter colocado sem qualque impedimento visual no sinal para àreas bem grandes, mas não. Se optar pela emissão analógica não tenho problemas no sinal, porquê?

  11. Amigos isto de tdt ,anacom, e ptcomunicações, é tudo farinha do mesmo saco já enviei varios emails para a anacom e nada fizeram com respeito aõs emissores que estam colocados em agueda , estam numa zona baixa a norte servem mal e muitas zonas nepia vem aõs sopros e noutras nem isso comuniquei que os ditos emissores deviam ter sido postos em talhadas do vouga ou s.joao do monte ou outro sitio alto resposta ao foram por causa das enterferencias isto cabe na cabeça de alguem a mim não porque trabalho em eletronica há mais de 30 anos e percebo um pouca de emissão por estas e por outras cabeças inteligentes é que o país esta como esta , cada cabeça sua sentença e assim vai o país de mal a pior , joao silva

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