Durante as consultas públicas para o concurso da TDT paga, a Anacom acatou muitas das sugestões feitas pelos advogados da PT, ou seja, o regulamento final foi influenciado pela empresa.
Na época, A PT considerou que as determinações de cobertura estariam “demasiado exigentes para uma operação de pay-TV”. A ANACOM optou por reduzir a exigência de cobertura de 85% da população para 75% e ampliou em 6 meses o prazo para que o objectivo fosse alcançado.
A PT também considerou que era um condicionamento injustificado exigir reserva de capacidade para serviços de programas regionais e difusão de actividades de âmbito cultural. O Grupo defendeu que a pay-TV deveria seguir critérios de mercado. A ANACOM então reduziu o peso dos programas regionais nos critérios de selecção da empresa vencedora.
No entanto, mesmo tendo influenciado nas regras do concurso que venceu, a PT agora desiste dos canais pagos da TDT.
É no mínimo estranha a atitude da Anacom, que tem agido sempre de acordo com os interesses da PT. Até mesmo a caução paga pela PT deverá ser devolvida.
O projecto de decisão da Anacom, referente ao pedido de revogação das licenças apresentado pela PT, mais uma vez vai ao encontro do discurso que a PT propaga. Ao ler o documento, pareceu-me mais uma consideração da PT do que do órgão regulador.
A PT invocou os seguintes argumentos, para fundamentar o seu pedido, os quais foram acatados pela Anacom:
1 – Antecipação dos investimentos relativos ao Multiplexer A e perda de sinergias: A PT alegou que efectuou a operacionalização referente ao Mux A (relativo aos canais free-to-air), mas que a acção impetrada pela AirPlusTV, em tribunal, impediu que a empresa pudesse “beneficiar das sinergias positivas” que a implementação conjunta dos serviços pagos e free-to-air implicaria.
2 – Desenvolvimentos ocorridos no mercado de TV por subscrição: Segundo a PT, depois da atribuição dos direitos, o mercado da TV paga em Portugal sofreu profundas alterações, como o crescimento da penetração dos serviços de TV por subscrição, que colocariam em causa a viabilidade de uma plataforma paga terrestre.
A empresa alega também que o protocolo assinado com o Governo, em Janeiro de 2009, onde a PT assume o compromisso de apostar no desenvolvimento de uma rede de fibra óptica, com a consequente criação de uma nova plataforma de pay TV, condicionaria a oferta de uma televisão por subscrição na plataforma TDT.
3 – Crise económica e financeira: A PT invoca que a crise mundial condicionaria o desenvolvimento da TV paga na TDT à diminuição dos investimentos na rede de fibra óptica.
4 – Atribuição de maior capacidade de transmissão para emissões em HD: A PT sugere que os actuais operadores possam já transmitir em HD sem restrições, o que facilitaria a adesão da população à TDT e a eventual realização do switch-off analógico, já que o 5º canal, que facilitaria a migração das pessoas ao digital, não tem previsão de ser lançado.
5 – Desenvolvimento da sociedade da Informação: A PT lembra o dividendo digital e a recomendação da União Europeia para que a faixa dos 800 MHz seja atribuída a serviços de comunicações electrónicas, como serviços móveis e fixos de banda larga.
Faço algumas considerações:
- A PT é uma grande empresa, que age com planeamento e segurança. Quando venceu o concurso, eliminou a entrada no país de uma empresa multinacional, que obteve êxito com TDT paga em outros locais. Ou seja, a AirPlus poderia fazer concorrência às plataformas MEO. Com a saída dela e a eliminação do serviço de TDT paga, como está a ser proposto, mais uma vez os usuários perdem, devido a uma menor concorrência.
- A alegação que a não existência de um quinto canal prejudica a migração voluntária para a TV digital é verdadeira. No entanto, parece-me que o erro neste caso foi do Governo, que até hoje não definiu qualquer coisa a respeito do novo canal. Espera-se sinais dos tribunais sobre o caso.
- A TDT portuguesa é, por definição, em HD. No entanto, durante o período em que há uma transmissão em simultâneo dos sinais analógicos e digitais, ou seja, até Abril de 2012, apenas alguns programas seriam em alta definição. Isso, por si só, já era visto pela Anacom como um atractivo para que as pessoas fizessem a migração voluntária para a TDT. Portanto, as emissões em HD já eram previstas desde a concepção do concurso.
- A não existência de uma plataforma paga da TDT acaba com a possibilidade de haver canais regionais em Portugal. Ao menos até agora, pois não há outro plano para que eles sejam implementados.
- A implementação da TDT portuguesa, que se arrasta desde 2001, é uma verdadeira novela, cheia de avanços e recuos. Os concursos realizados sem estudos aprofundados demonstram o despreparo de Portugal para colocar em funcionamento o que em alguns países europeus já está consolidado há tempo.